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A história do nosso povo

Em 2006 fui a Brasília pela primeira vez. Na ocasião era uma jovem de 23 anos e acompanhava meu pai Adriano junto da comunidade remanescente de quilombos da Ilha de Marambaia, berço de ancestralidade da minha família, numa viagem organizada pela ONG Koinonia na tentativa de garantir o direito dos moradores à terra. Participamos de várias audiências públicas e visitamos diversas autoridades governamentais. Naquela época, eu, enquanto estudante de graduação, já possuía um certo entendimento das implicações do ativismo social na minha vida, mas não tinha maturidade para lidar com elas. Ao longo daqueles dias, observava atenta e admirada o eloquente desempenho das historiadoras, sociólogas e pesquisadoras da ONG diante dos parlamentares e demais autoridades. Eram falas tão contundentes e articuladas que me faltava profundidade para acompanhar os debates. Ainda assim, me arriscava a pedir a palavra em determinados momentos, destemida que sou. Foi um grande marco, o primeiro grande movimento de militância e ativismo social da minha vida. Ir à Brasília e discutir com deputados, senadores, procuradores da república, reivindicar direitos constitucionais e garantir a escuta da comunidade. O tempo passou. Quase treze anos depois retorno a Brasília com o mesmo propósito, dar visibilidade à população quilombola. Contudo, ocupando um outro lugar, o do saber reificado e científico. A convite do Conselho Federal de Psicologia, participei da reunião do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas (CREPOP) como especialista para contribuir na elaboração da Referência Técnica para Povos Quilombolas. O Convite e esta participação tiveram um enorme valor simbólico para mim e toda a comunidade quilombola. Além da honradez pelo fato, carrego a responsabilidade de levar à toda a comunidade psi um saber sobre estas populações que poderá auxiliar no manejo profissional e direcionamento de frentes de atuação. Conheci mulheres incríveis dotadas de um conhecimento gigantesco sobre a temática. Juntas, através desta referência, tentaremos fortalecer o compromisso social da Psicologia com a diversidade e respeito a todas as formas de existência humana, dentre elas os povos quilombolas. Fico imensamente feliz em saber que o Conselho Federal de Psicologia está atento e preocupado com os povos tradicionais e com a defesa das minorias. Hoje, mais madura, tenho a plena consciência da importância deste evento e das implicações da minha participação nele. Apesar de não me considerar uma representante em potencial, reconheço o anseio por representatividade em espaços de poder. Quando um quilombola fura o bloqueio ele deve dar visibilidade ao seu povo. É muito mais que a elaboração de um texto, é um ato político de resistência. É necessário e urgente, sobretudo nos tempos atuais de intenso retrocesso e truculência. Gratidão, Pedro Paulo Bicalho ? Termino este texto voltando ao nome que fiz menção no início. Sr. Adriano de Lima, a educação mudou a história da nossa família. Você foi o primeiro quilombola da comunidade a concluir o curso superior. Deu às suas filhas a oportunidade de seguirem o mesmo caminho. Nos transmitiu o inconformismo com as injustiças sociais. Seguindo o seu exemplo, aqui estou, pai. Muito longe da sua grandiosidade, mas aqui estou levando adiante através da minha profissão as nossas raízes ancestrais e a história do nosso povo. Obrigada!

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